"Minha formação musical é a vontade..." Rodrigo Amarante
Gravado em 2005, o Programa Ensaio
contou com a presença da banda Los Hermanos, logo após a estreia daquele que
viria a ser o último álbum de estúdio, ''4'' (leia sobre).
Nesse cenário de muita música e pequenas
entrevistas com os integrantes, o vídeo a seguir também mostra um pouco
daqueles que foram de grande influência para cada um.
"Quem se atreve a me dizer do que é feito o
samba?"
Faço
proveito dessa pergunta para dizer que até onde se sabe não houve atrevimentos
de tal "porte". Estudando a história do samba, encontra-se
definições, datas e explicações sobre sua origem. No entanto, nem mesmo grandes
gênios que fizeram parte do que hoje pesquisamos, daquela "nata da
malandragem"* - tais como o grande Paulo da Portela (vital para divulgação
e a retirada do preconceito muito comum daquela época com o samba), Ismael
Silva (um dos fundadores da primeira escola de samba, "Deixa Falar",
1928), Alcebíades Barcelos (Bide, malandro que criou o surdo,
mudando o ritmo anteriormente "amaxixado"), Cartola, Noel Rosa, entre
tantos outros dessa lista enorme - ousaram dizer do que ele era feito. Porém, o
samba sempre foi algo muito citado nas próprias composições, houve, sim,
aqueles que muito já disseram e destacaram nas músicas como ele era importante,
entretanto, a magia que esse gênero causa nunca poderá ser explicada e os
grandes sambistas da antiga sabiam disso. Talvez esse seja um dos motivos
daquela época ter tornado-se um marco para cultura brasileira - claro, além de
todo contexto histórico, como sua origem, gêneros anteriores, etc - tudo era
feito com cuidado, aqueles compositores se importavam verdadeiramente com o que
estava sendo escrito e a melodia que ficava por cima, os sambas não faziam
parte de suas vidas, o samba era a vida de cada um, onde, então, ela se
refletia. Mas o que aqueles sambistas não sabiam é que estavam muito a frente
de seu tempo, desprovidos da tecnologia, essa facilidade para encontrar
qualquer coisa e principalmente entregues à escassez de instruções, fizeram
algo que em pleno século XXI não pode evoluir; quase de forma generalizada, os
sambas contemporâneos e suas atividades são feitas para o comércio, ou/também
para um ato mais exibicionista. Enquanto, antigamente, eram feitos nos
terreiros, no morro... E sem maiores pretensões. Logo, aí está
outro ponto mágico do samba: sua evolução foi feita lá atrás.Por
fim e para uma melhor compreensão dos fatos que levaram a crer que o samba e as
"Escolas de Samba" tomaram rumos que não eram inerentes aos
propósitos iniciais - como quando surgiram - e também para dar uma breve "definição"
do que podemos chamar de "samba", deixarei um trecho do livro escrito
pelo Mestre Candeia e Isnard. Leiam a "apresentação" de muito valor dada por
Sérgio Cabral:
"O
samba é a mais expressiva linguagem musical do povo carioca. Hoje enriquece os
donos do mercado musical, enquanto as escolas de samba são utilizadas pelo seu
potencial turístico, sugadas pelo que oferecem de supérfluo e desprezadas pelo
fundamental. Há tantos interesses em torno do samba e das escolas que fica
muito difícil saber onde é a fronteira da manifestação espontânea do povo e a
ganância."
Trecho extraído do livro "Escola de Samba: Árvore Que Esqueceu a Raiz".
*referência à música "Homenagem ao Malandro".
Samba a Dois: música de Marcelo Camelo e que faz
parte do terceiro álbum da banda Los Hermanos, Ventura. Além dos geniais
trocadilhos feitos no refrão,
"Me lava a alma, me leva embora..."
"Me lava a alma,
me leva agora..."
que fazem referência à Mila Burns - mulher com quem Marcelo já foi casado -
quando o mesmo canta "Mi lava a alma, mi leva embora", a canção traz
também uma "intertextualidade" com outra de Chico Buarque, "Tem
Mais Samba" nos seguintes trechos:
Samba
a Dois
(Marcelo Camelo)
Quem me ensinou a te dizer
"Vem que passa o teu sofrer"
"Me
laça a alma, me leva agora
Já que um bom samba não tem lugar"
Tem Mais Samba
(Chico Buarque)
"Que o
bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem
que passa
Teu sofrer
Se todo mundosambasse
Seria tão fácil viver"
____________________________________________ Ouça agora cada uma delas:
Feita
para o musical Balanço de Orfeu, de Luiz Vergueiro.
Chico
considera essa canção o marco zero de seu carreira profissional. Foi uma
encomenda feita pelo produtor Luiz Vergueiro para o show Balanço de Orfeu, que
estreou em 7 de dezembro de 1964 no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo.
Em depoimento para o jornalista e escritor Humberto Werneck, Luiz conta que a
música funcionaria como uma espécie de moral de história para o conforto entre
a Bossa Nova e a Jovem Guarda. A canção seria cantada no final do espetáulo,
por todo o elenco, numa mais do que esperada vitória da Bossa Nova.
A primeira sugestão de Chico não satisfez o diretor, e a música só ficou pronta
na véspera da estreia. Era "Tem mais samba" - que, além de marco
inicial, indicaria "uma constante em seu trabalho: a criação por encomenda
[aquela foi a primeira], contra o relógio, mas nunca em prejuízo da beleza e do
prazer de criar", segundo Werneck.
Trecho extraído do livro "Chico Buarque - Histórias de Canções", de Wagner Homem, (página 18).
Em
uma apresentação no Bem Brasil, Marcelo cantou um dos versos da música
"Mania de Você" da Rita Lee no final. Ouçam:
Agora
para os mais interessados, deixarei o link para download do Livro "Escola
de Samba: Árvore que esqueceu a raiz", mais algumas fontes para o estudo
desses que foram tão importantes para a música popular brasileira e que talvez devido
a essa importância, inspirou uma das mais belas músicas escritas pelo Marcelo
Camelo, da qual ele não hesitou terminar de outra forma a não ser "nem se
atreva a me dizer do que é feito o samba".
Em
2007 o programa "Som Brasil" contou com a participação de alguns
artistas para homenagear o grande "Poeta da Vila": Noel Rosa.
Entre
esses ali presentes, estava Rodrigo Amarante, que, acompanhado pela Orquestra
Imperial, interpretou um dos belos sambas que esse gênio nos deixou.
Faz algum tempo que mais
uma seleção foi feita pela revista Rolling Stone e nela grandes nomes da música
brasileira estão reunidos (veja a lista completa). Porém, os apaixonados pela música popular vão procurar nessa lista outros artistas que muito contribuíram para cultura do
país e mesmo assim não fazem parte dela. Entretanto, gênios como Tom Jobim,
Vinicius de Moraes, Cartola, Noel Rosa (...) foram selecionados e junto a eles,
os hermanos Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante.
Essa
não foi a única vez em que Camelo e Amarante deixaram seus nomes perto aos de
outros artistas renomados, os álbuns “Bloco do Eu Sozinho e “Ventura” são
exemplos fortes disso, sendo uns dos melhores da música brasileira.
São
muitos os que conhecem grandes artistas pelo nome, mas o número dos que sabem
afundo ou já ouviram, diminui de forma assustadora - principalmente quando se
trata de nomes menos populares - grande parte das pessoas não conhecem. Então, baseada
nessa seleção, farei um breve relato de alguns que nela estão (não
necessariamente na ordem), destacando aquilo que sempre tomei como verdade: Los Hermanos está diretamente ligado à criatividade e
riqueza melódica, responsável também por direcionar os fãs/admiradores de seu
trabalho a muitas outras personalidades importantes para música.
Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Vinicius (o poetinha) foi parceiro de
grandes artistas, tais como Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto,
Chico Buarque e Carlos Lyra. Mas a grande marca para a música popular brasileira
seria através da parceria entre ele e Tom. É difícil destacar as obras e impossível fazer uma
homenagem à altura desses dois. A importância de ambos para a cultura
brasileira e a influência sobre todas as novas gerações da MPB é incontestável.
A forma com que agregaram a literatura, o teatro,
cinema, música... Não deixaram Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim irem
juntos às suas datas de falecimento (9 de julho de 1980 e 8 de dezembro de
1994, respectivamente). Pois, permanecerão intactos na história de todas as
áreas em que contribuíram.
João Gilberto
e a bossa nova...
A chamada bossa nova, surgida no fim
da década de 50, tal como o choro, quase um século antes, não constituiu um
gênero de música, mas uma maneira de tocar. (...) surgiu um baiano que se
acompanhava ao violão com uma batida de bossa realmente nova. Esse baiano de
Juazeiro chamava-se João Gilberto (...) chamava a atenção com improvisos dentro
da sua invenção de acordes compactos. (...) seria reconhecido pelo Maestro
Antônio Carlos Jobim quando, ao escrever a contracapa do long-playing
denominado Chega de Saudade (Odeon MOFB 3 073) – o primeiro com produções
estilo bossa nova -, referiu-se a ele dizendo: “Em pouquíssimo tempo
influenciou toda a geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores”.
Trecho extraído do livro: Pequena
História da Música Popular, de Jóse Ramos Tinhorão.
Ouçam então a música “Chega de Saudade”,
pelo “chorão”: Jacob do Bandolim (que também está na lista dos 100 maiores).
Chico Buarque
ainda na bossa nova...
Saía pela Odeon o compacto simples de João Gilberto trazendo no lado B "Bim bom", de sua autoria, e no lado A "Chega de saudade", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que daria nome ao revolucionário LP de 1959. Era a Bossa Nova, estilo que até hoje, 51 anos depois, influencia músicos em todo planeta. Chico era, então, um adolescente.
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de junho de 1944, Fracisco Buarque de Hollanda foi o quarto filho dos sete que o historiador Sérgio Buarque de Hollanda teve com Maria Amélia Cesário Alvem. (...)
Embora Chico afirme em diversas entrevistas que a atração pela literatura é anterior ao gosto pela música, um fato chama atenção: antes de partir para Roma, deixou para a avó um bilhete, de uma crueldade ingênua, só permitida às crianças: "Vovó Heloísa. Olhe vozinha não se esqueça de mim. Se quando eu chegar aqui você estiver no céu, lá mesmo veja eu ser um cantor do rádio."
São dessa época suas primeira aventuras musicais .
(...) Na Itália, Chico estudou em escola americana (...) De volta a São Paulo, cursou o colégio Santa Cruz (...) ali escrevia contos e crônicas no jornal escolar Verbâmidas. A experiência levou-o a acreditar que um dia seria escritor. Mas o LP Chega de Saudade adiou esse sonho por alguns anos. A batida inconfundível de João Gilberto, com seus acordes econômicos, o arrebatara para música.
(...) A forma intimista da Bossa Nova, com apenas um banquinho e um violão, sem a necessidade de um vozeirão impostado, facilitava a vida de que desejasse se aventurar por esse caminho.
Trecho extraído do
livro: Chico Buarque - Histórias de Canções
Chico é reconhecido
por incontáveis músicas, tendo uma obra vasta e parceria com grandes nomes da
MPB. É uma verdadeira lenda da música ainda viva.
Deixo aqui uma das
músicas mais conhecidas de seu repertório:
Roda-Viva
Nome dado a uma peça escrita pelo Chico.
A música obteve o terceiro lugar no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record (setembro e outubro de 1967).
Assista:
Ouçam também a música "Carolina" (1967), interpretada por Jacob do Bandolim, Elizeth Cardoso e Conjunto Época de Ouro (1968).
Jacob do Bandolim
um dos mestres do Choro!
Noel Rosa
.
Até
então o que mais citei foi a famosa "Bossa Nova", mas o que nem todos
sabem é que essa existe pelo menos desde o iníio da década de 30 e foi citada
pela primeira vez em uma música do sambista Noel Rosa, "Coisas Nossas",
leia o trecho:
"O samba, a prontidão E
outras bossas, São
nossas coisas, São
coisas nossas..."
Mas antecedente à então Bossa
Nova, é o samba! E de samba Noel Rosa era "bacharel". Esse poeta da
Vila Isabel compôs obras imortais, tão belas que não são inerentes a pouca
idade e o prazo curto de vida que esse grande gênio teve.
Noel não é assunto pra poucas
linhas e é uma ousadia querer resumir toda a história e citar a contribuição
que esse malandro deu para a música. Sendo assim, deixo o filme "Noel - O
Poeta da Vila", para quem quiser (e eu recomendo) conhecer um pouco mais sobre ele:
E ouçam uns dos sambas que mais aprecio
desse grande compositor:
E a famosa "Dama do Cabaré". Música
que Noel fez para Ceci - poderão conhecer melhor vendo o filme que deixa acima.
Essa música que disponibilizei no "soundcloud" fez parte da seleção
das "10 canções obrigatórias para entender o samba" (veja aqui). Gravada pelo cantor das multidões, Orlando Silva, um dos maiores intérpretes da era do rádio e que está também presente na lista dos ''100 maiores'', merecidamente.
Mais
um também gravado pelo Orlando Silva e dessa vez cantado por Rodrigo Amarante,
assistam:
Ary
Barroso
Compositor
de sambas maravilhosos, tais como “Aquarela do Brasil” e o polêmico “Foi ela”,
lançada
em janeiro de
1935. Ary foi acusado de plagiar o tango argentino com essa composição.
Ouçam, interpretada pelo "Rei da Voz", Francisco Alves (outro que também faz parte da seleção dos 100 maiores:
Mário
Reis e Francisco Alves
Ouçam
um samba gravado pela parceria dos dois:
Agora, na voz de Francisco Alves (Rei da Voz), o
samba "Vivo deste amor", de uma das duplas que mais marcaram a música popular brasileira: Bide e Marçal.
Interpretado por Mário Reis e Diabos do Céu,
um dos sambas mais belos que já existiram, também da dupla Bide e Marçal. Ouçam o "Agora
é Cinza".
Ismael Silva
Esse
bamba do Estácio de Sá foi um dos fundadores da primeira escola de samba do
Brasil, "Deixa Falar" (1928). Sua importância para a história do samba
é incontestável.
Ouçam um samba da parceria de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, na voz de Cristina Buarque:
Lupicínio Rodrigues
"No meu enterro
não quero ninguém chorando. Não quero isso no meu velório. Quero todo mundo
cantando "Se Acaso Você Chegasse". Este pedido, Lupicínio fez à sua
esposa, quando pressentiu que teria poucas horas mais de vida."
Ouçam:
Pixinguinha
mestre do choro...
Um
dos maiores e mais importantes músicos brasileiros. Pixinguinha é outro difícil
de descrever. Em sua homenagem, o dia 23 de abril (seu aniversário) é tido como
o dia nacional do choro.
Além
do choro “Naquele Tempo”, deixarei também um “link” para quem quiser conhecer
um pouco mais sobre esse grande mestre! Encontrei em um Blog maravilhoso, essas palavras ditas pelo Walter Firmo, fotógrafo que nos deu a foto mais conhecida
de Pixinguinha. Vale a pena conferir:
11 de outubro - uma das datas mais especiais do
nosso calendário. E vale marcar. Foi nesse dia, no ano de 1908 que nasceu
Angenor de Oliveira, o nosso CARTOLA!
Ouçam um samba do divino gravado pelo rei da voz:
Nelson Gonçalves
Samba na voz desse boêmio:
Chiquinha
Gonzaga
Matéria
feita pelo site "estadao.com.br" no dia 11 de maio de 2012:
"A presidente Dilma Rousseff sancionou ontem lei que cria o Dia Nacional
da Música Popular Brasileira, em 17 de outubro. A data foi escolhida por ser o
dia do nascimento da pianista e regente Chiquinha Gonzaga (1847-1935), a
primeira compositora popular do Brasil."
Agora,
por José Ramos Tinhorão, trecho retirado do livro: Pequena História da Música
Popular:
"Chiquina
Gonzaga – obrigada por necessidade a tocar em bailes populares ao lado de
chorões (...) tornaria os seus tangos muito mais aceitos pelo povo, como
aconteceu com o maxixe disfarçado de dança no corta-jaca
intitulado Gaúcho,
de 1897."
Ouçam:
É claro que esses pequenos relatos e
músicas que disponibilizei estão de forma muito superficial. Não há como
contar grande parte da história desses mestres em poucas linhas, portanto, tudo isso foi feito apenas para mostrar a parte “boa” dessa seleção
feita pela revista, onde Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante também estão. É
válido ressaltar que outras feras como Nélson Cavaquinho, Adoniran Barbosa,
entre outros também fazem parte e merecem um estudo de vocês (não só esses mas
também muitos outros que ficaram de fora e espero ter aguçado a curiosidade de
alguns para esse lado “esquecido” da MPB). Porém, não haveria espaço e talvez
eu me repetiria, deixando o intuito dessa postagem avulso. No entanto, espero
também ter ajudado a minha afirmação de como “Los Hermanos” pode nos aproximar de
diversas personalidades importantes para a música. Por fim, deixo uma
entrevista onde Marcelo Camelo responde uma pergunta referente a isso, se o som
da banda aproxima a geração mais nova desses grandes compositores da antiga: